O Sonho

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Ele acordou. Um sono desperto com tormentos camuflados o envolvia. O grau de inconsciência era profundo, mas suas exteriorizações eram lúcidas. As incoerências não estavam ao alcance das mãos, pois tudo o que se podia ver, tocar, cheirar, ouvir e degustar era perfeitamente forjado, até com suas perfeitas imperfeições. As falhas do sonho não estavam lá fora, elas nunca estão. Só se percebe os defeitos da ilusão quando a procura é feita no interior, que permanece imaculadamente imperfeito, embora escondido sob as brumas da consistente inconsistência exterior.

 

Palavras formaram-se em sua mente vindas de lugar nenhum.

 

“A verdade é que assim sempre havia sido e sempre será àqueles que insistem em acreditar nos sentidos. O mundo não é o que é, porque ele nunca foi e nunca será. O mundo é simplesmente o que parece ser; e o que ele parece ser é a forma captada através da sua forma de ser. O mundo é o que você é. E o que é você? Vida que vive em um sono real de sonhos irreais e que, portanto, não vive. Vida que não vive desperta, pois cochila viva. Vida que prefere viver uma realidade ao invés de viver de verdade.”

 

“A única realidade absoluta é que a vida é você e ela é feita através de você. Você é vida. Pois bem, se o mundo é o que você é, então ele só pode ser, da mesma forma, vida. Contudo você é capaz de enxergar a vida por trás das formas de vida? Além do que seus sentidos comunicam? Além da ilusão? Enxergar o mundo além da forma e do tempo? O que quer reste, não resta para ser compreendido, apenas vivido, pois o que resta é vida.”

 

“Fuja da compreensão e abrace a incerteza. A mente não pode compreender o que vai além da forma, não é capaz compreender a si mesma nem a profundidade inexplorada do interior. As imperfeições da própria mente só podem ser percebidas se observadas sob um outro referencial, uma consciência mais profunda, mais pura e livre de tormentos. Só que para você alcançá-la é necessário se despir das certezas e entrar na morada do vazio. É preciso se sentir confortável com a liberdade proporcionada pela ausência de paradigmas. E aqui o tormento cessa, pois não há o que restar oriundo do mundo das formas.”

 

As palavras cessaram e ele encontrou a alma. Foi capaz de encarar as próprias imperfeições e perceber que elas existiam em maior número do que sua mente poderia supor. A ironia é elas só terem forma para se manifestar no sonho. Deixou-o ir com todas suas imperfeições, perfeitas ou não. O que resta quando nada mais restar é vida, a essência imutável, a conexão. Não há forma, pois tudo está unido em um único todo. Ele se tornou nós. E então despertou.

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.

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