Opiniões de um Andarilho

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Certo dia eu encontrei um amigo na rua. Ele falava com um desconhecido, que logo achei um tanto louco. Não tive intenção de permanecer por muito, mas o debate caloroso me despertou o interesse. O louco era enfático em seu discurso, transparecendo opiniões fortes a respeito do clima, das pessoas e do rei.

 

Eu pouco fiz além de ouvir. A cada palavra sua loucura ficava mais evidente, mas assim também ficava sua sanidade insensata. Provavelmente fora essa dualidade, essa dificuldade de classificá-lo, que me levou a conservar suas palavras em memória.

 

Transcrevo aqui um trecho em especial, que tem me incomodado nas últimas noites. Acho que após tantos anos, eu finalmente começo a entendê-lo, ainda que discorde de vários pontos. Mas afinal, é exatamente essa discordância que é colocada em cheque:

 

 

Nossas visões de mundo sempre vão entrar em conflito em algum ponto, pois somos imperfeitos, e não conseguimos perceber o todo. Assim nossos sensos de justiça não são iguais e não conseguem ser igualmente satisfeitos.

 

A figura de nosso rei é uma simplificação. Mas como pode um homem mandar em todos nós? Será que não temos direito de opinar sobre ele? Será que o queremos no poder? Será que concordamos com seus preceitos?

 

Pois bem, para muitos seria mais justo se a voz da maioria prevalecesse.

 

Abaixo à simplificação, em nome da justiça!

 

Mas e aí, então, o que seria? Escolheríamos um representante, eleito pelo povo. Só que ele ainda é uma pessoa, carregada de interesses pessoais, e, portanto, o nosso voto não representaria nossa vontade pura, mas o conjunto de interesses disponíveis que fosse mais congruente com ela. Trocaríamos uma simplificação por outra; porém, a consideraríamos mais justa.

 

Mesmo que o representante eleito fosse um bom altruísta, ele governaria com sua própria noção de justiça.

 

Mas justiça é justiça, você diz. Certo, então que façam-se leis. As quais nada mais são do que outra simplificação para um bom convívio em sociedade. Mas tudo bem; que, em um mundo ideal, deixassem a voz da maioria escrevê-las. Assim teríamos um representante da maioria seguindo a justiça escolhida pela maioria. Isso é justo?

 

Aos bons ou aos maus, tanto faz. Nunca sentiremos nosso senso de justiça completamente atendido, e, nesse modelo de justiça comum, precisaríamos nos calar porque assim quis a maioria. Esse é um caminho pobre, mas aconselhável para a construção de uma sociedade saudável.

 

A alternativa, você pergunta? Eu diria que só há uma: sair da sociedade. Sim, digo sair e não viver às margens dela. Se você quiser justiça de verdade, conviva apenas consigo; garanto que não haverá espaço para injustiça. Está com fome e não consegue comida? Irá dizer o quê? Que a natureza é injusta?

 

É… talvez seja. Mas isso só prova que a balança nunca se equilibra.

 

Ainda assim, não deixe meu pensamento passar uma impressão errada. Honestamente, eu até estimo o isolamento. Não, não o isolamento em si, mas o afastamento da sociedade e de suas classificações. Mais que isso, o afastamento de suas limitações.

 

A sociedade restringe o espectro da vida a uma parcela tão minúscula que desconfio não saber o que viver realmente significa. Ela busca pelas semelhanças, pelos padrões, por um molde universal… Só que a vida acontece nas diferenças e, ao sufocá-las, não vivemos. Sofremos sem saber o que é a verdadeira dor; rimos sem saber o que é o verdadeiro prazer.

 

Simplificamos ambos os lados da moeda e morremos. E isso é curioso. Acho que a simplificação é a chave da sabedoria, porém precisa vir de dentro; quando imposta por fora, ela passa a ser simplória, não compreendida, e limitante.

 

Enfim, é por isso que estimo o isolamento. O afastamento desse padrão da satisfação comum: incolor, estática e sem vida; e, ainda assim, tão desejada pelas pessoas comuns. O afastamento desse padrão da insatisfação popular: colérica, dopada e amarga. É isso o que vejo nas ruas: sorrisos limitados e gritos surdos de injustiça.

 

A promessa de proteção e segurança, de comodidade e companhia, que a sociedade faz, já não me satisfaz. O preço que pago por esse convívio morno é a limitação do meu espírito. Agora talvez você me entenda, procuro pela liberdade. Aquela liberdade desgarrada, sem certezas nem seguranças, abarrotada de injustiça. Sim, só que essa é a injustiça natural; ou chame-a de divina, se for mais espiritualizado. O que não aguento mais é a injustiça social.

 

Foram mais ou menos essas as palavras. Eu sei, há trechos confusos, mas eles assim eram no instante em que os ouvi. E eles me incomodaram. Primeiro fiquei indignado com as palavras bruscas e pessimistas. Mas talvez elas só assim parecessem porque assim eu as interpretei.

 

Nossas visões de mundo são diferentes, não? Como eu posso ter a presunção de ter interpretado cada pensamento, cada frase, cada palavra do louco com a exata significação que ele as dava? Por isso me retive. Diante da loucura, quis transmitir minha dose de sensatez e sabedoria; ao menos fingi-las.

 

Hoje as compreendo melhor. Mas dessas palavras, acho incrível como um conjunto delas tem o poder de revirar-me a alma sempre que passam pela minha mente.

 

“Buscamos pelas semelhanças, pelos padrões, por um molde universal… Só que a vida acontece nas diferenças e, ao sufocá-las, não vivemos.”

 

Acho que a essência da mensagem está aí. É aí que deve repousar minha sabedoria fugaz. Espero conseguir conservá-la logo abaixo com minhas próprias palavras. Farei isso em breve.

 

– Mais um ano, sem novas notas.

Seguir K. G. Joner:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.

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