Partidas

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Ela olhava pela janela, olhos perdidos no vazio, sentada no parapeito, abraçada aos joelhos.

 

Ele aproximava-se devagar, desejando que o tempo se arrastasse. Não, que parasse de vez. Esforçava-se para encontrar as palavras certas, mas elas apenas tropeçavam umas nas outras ainda em sua mente. Devia haver uma combinação efetiva, não? Quantas palavras existiam? Estatisticamente isso era…

 

Ela o fitou e as palavras o abandonaram.

 

…impossível. Amaldiçoou-se por ser terrivelmente ruim naquilo. Desejou que a resposta fosse uma operação algébrica simples das perguntas que fazia.

 

Parou defronte a ela; seus olhos não desviaram. Ele não sabia como ou por quê, mas podia ter certeza do que comunicavam. Estava na hora de respondê-los.

 

Engoliu em seco. Molhou os lábios. E fez seus dedos se encontrarem com os dela. O abraço nos joelhos foi desfeito e, em seu lugar, ela retribuiu o toque, mais firme.

 

Ela sustentou o olhar durante um tempo e, então… Por quê? Por que o momento não podia ter sido um pouco mais longo? …desviou-o para baixo. Encarava as malas encostadas na parede, aos pés dele.

 

Ele assentiu para ninguém em especial enquanto mordia o lábio inferior. O aperto afrouxou e ele retraiu a mão para ajudá-la com as malas…

 

Teria sido isso mesmo? Sem mais repostas? Sem soluções?

 

… mas, ao invés, levou-a até face dela. As palavras saíram num ímpeto irrefreável:

 

— Não se preocupa, vamos encontrar um lugar a que pertençamos.

 

Os olhos dela voltaram a fitá-lo e seus lábios ofereceram um sorriso contido. E, então, ela desapareceu.

 

Ele expirou com força, um pouco aliviado, e sentou no parapeito. Abraçou os joelhos. Olhou para a paisagem além e reviveu tudo o que aquilo representava. Sorriu.

 

Pra onde quer que possamos ir.

 

Desviou o olhar e encarou as malas encostadas na parede abaixo. Estava na hora de partir.

Seguir K. G. Joner:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.

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