Sobre a Vontade de Escrever

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Sento e escrevo. As palavras começam a fluir com uma graça tímida. Não é nem de perto meus dias de maior inspiração, mas não interessa, continuo a escrever.

 

Qual o propósito disso, você pergunta.

 

Exato. O propósito desse artigo é tratar do propósito de escrevê-lo.

 

Agora você ficou confuso ou talvez tenha achado que possuo um humor duvidoso. Quem sabe ambas as coisas.

 

Minha inspiração já escassa continua a cair, mas continuo escrevendo.

 

Há sim uma mensagem que quero transmitir aqui. Mas não necessariamente propagá-la.

 

Enquanto você lê o que escrevo, tem acesso a minha maneira de pensar; afinal, estou lhe oferecendo uma amostra dos meus pensamentos. A forma como estas palavras se encaixam e como estas frases se estruturam dizem muito sobre como os pensamentos se organizam em minha mente.

 

Mas dificilmente eles vêm organizados.

 

Exteriorizá-los com a escrita é uma excelente forma de enxergar o panorama das minhas reflexões: é possível encontrar áreas nebulosas, aquelas que demoro para transpor em frases inteligíveis; assim como é possível detectar falhas lógicas.

 

Para mim, escrever é refletir. É isso o que me mantém aqui.

 

Reescrevi os últimos quatro parágrafos algumas vezes até chegar na forma em que você está vendo. Ver os pensamentos escritos me permitiu pensar sobre uma forma melhor de pensar e, assim, uma forma melhor de apresentar meus pensamentos.

 

Ainda assim esse texto é uma exceção.

 

Não costumo escrever pensando em você. Escrever, sem dúvida, também é transmitir; mas a transmissão deve ser feita, primeiro, para si mesmo.

 

Escrever é amadurecer.

 

Essa é a causa e a consequência resumida do que realmente me amarra às palavras.

 

O trabalho de escritor pode até ser propagar uma mensagem clara e definida. Mas a clareza só é atingida quando a mensagem está clara no interior do mensageiro.

 

O que faz um escritor ser não é o seu trabalho. Tampouco é o artigo escrito, o livro publicado ou prêmio recebido.

 

O que faz um escritor ser é a sua necessidade de escrever. Ele sabe que não há espelho melhor por onde ele possa encarar sua alma do que os seus próprios textos. Ele sente que cada porção ínfima de palavras é um fragmento de seu interior, agora exposto de uma maneira lógica, compreensível ou não.

 

A escrita o define, as palavras o suportam, os versos e frases o nutrem.

 

Mas, principalmente, lhe permitem amadurecer e abrem espaço a novos pensamentos.

 

No fim do dia é isso o que importa. Quantos novos pensamentos você teve hoje? Como eles o transformaram em uma pessoa melhor?

 

É por isso que escrevo e por isso que sinto vontade de escrever.

Seguir K. G. Joner:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.

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