"Na noite sem luar ele clama,

Não pela alma perdida,

Mas pela que fora corrompida

Por seus próprios pensamentos."

 

Airas Bonaval, o Trovador de Trevilha,

em O Clamor dos Insanos.

 

O coração do rapaz havia parado de bater. O curandeiro continuou comprimindo-lhe o pulso e manteve os olhos fechados. Agora é que seu trabalho começava. Concentrou-se naquela vibração sutil e inaudível, a linguagem secreta das leis naturais, responsável pela transmissão do calor, pela formação das nuvens e pela morte. Era ali que precisava intervir.

A única vela acesa no cômodo apagou.

Dois gritos contidos de surpresa: o pai e a irmã pequena. O curandeiro podia sussurrar-lhes à alma para que se acalmassem, mas não queria dividir sua atenção. O único murmúrio que tinha emitido fora um pedido de busca; se tivesse mexido os lábios, bem pareceria um padre de verdade com uma prece. Mas aquele era um murmúrio que somente as leis naturais podiam ouvir; não eram palavras vazias e ele não precisava de fé.

Aguardou um tempo para que sua mensagem pudesse ser recebida. O mais difícil daquela arte era ser surdo. Embora pudesse usar a Linguagem, ele era incapaz de ouvir a resposta, somente sentir os seus reflexos no ambiente. Assim, quando julgou ter esperado o suficiente, enviou a segunda mensagem; só que dessa vez não era um pedido, era uma ordem.

Aguardou mais um pouco. Seus dedos sentiam o calor se esvaindo do corpo do rapaz. Emitiu outra ordem. E então um conjunto delas. Nenhum espasmo, apenas frieza. A insegurança logo se transformou em decepção. Emitiu uma última ordem, já fraca. Os dentes trincaram.

— Padre? — era a mãe.

O curandeiro abriu os olhos e percebeu que o aperto sobre o pulso do rapaz estava tão forte que sua mão tremia. Susteve-o devagar. Expirou com força e ergueu os olhos. Do outro lado da cama, o pai chorava agarrado à irmã pequena enquanto a mãe tinha o bebê nos braços e encarava o curandeiro, séria.

— Descul… — A tensão no maxilar era tamanha que chegou a estalá-lo. — Desculpa. Parece que o Grande Arquiteto tem outros planos para o seu filho.

O queixo da mulher franziu, sua fé desmanchada em frustração. O pai soluçou. O curandeiro levou uma das mãos à testa do rapaz e mexeu os lábios ao acaso, sem se preocupar em formar palavras.

— A alma dele descansará em paz — disse por fim. Aquilo era patético. — Sinto muito, minha senhora, meu senhor. — Seu tom era mais frio do que convinha.

A mãe colocou o bebê ao lado do corpo inerte e enlaçou ambos em um só abraço. O curandeiro afastou o olhar da cama e só então percebeu a mulher encostada ao batente da porta. Era a sobrinha do donatário. Trazia os lábios apertados e a testa enrugada, mas assim que foi avistada, meneou a cabeça.

— Irei deixá-los ter seu momento. Sei que é importante. — Levantou-se e contornou o leito e a família. — Voltarei em breve.

A mulher recuou do batente, ele atravessou o umbral e fechou a porta devagar.

— Sinto muito, você parece decepcionado. — Ela estava de pé no meio da sala, os olhos negros úmidos, a voz baixa.

— É difícil errar quando se faz o que faço, e mais difícil ainda é aceitar o meu erro. — Mas aquilo era muito mais que decepção. — Lido com questões delicadas.

— Mas como você sabe que errou, padre? Não és apenas um instrumento da vontade divina?

— Só que continuo sendo uma pessoa, tenho qualidades, defeitos e desejos. E eu queria ser capaz de salvar todos eles, senhorita Amáguila; não posso deixar de me sentir impotente quando não consigo.

Ah, como as verdades são frágeis. Não que fosse uma surpresa, não quando elas fluem por um idioma que permite manipular as palavras com tanta facilidade. Qualquer mudança, qualquer acréscimo, qualquer omissão podia transformar uma verdade tímida em uma mentira completa. O que ele havia dito, no entanto, era uma meia-verdade.

— Tudo bem, padre. Não há erro, ninguém vai lhe culpar por nada. — Ela, então, puxou um lenço do bolso e limpou os olhos.

— Com todo respeito, senhorita, mas você conhecia o rapaz?

— Só de nome… quer dizer, essa é uma vila pequena. — Ela forçou um sorriso. — É sempre triste quando um dos nossos se vai, ainda mais tão cedo. Ele tinha somente três verões a menos do que eu.

O curandeiro apertou os lábios e assentiu; era isso o que as pessoas comuns fariam para evitar a complexidade da situação, não? Fraco e patético.

— Bem… meu tio pediu para avisar que ele estende sua hospitalidade a você durante o tempo que precisar. É sempre bom ter um discípulo da Fé entre nós.

— Agradeço a generosidade, seu tio é um bom homem.

— É, eu gosto de pensar que sim. — Forçou outro sorriso. — E pode deixar que eu cuido da situação agora. Tudo bem se você for até a praça? Uma arcanista chegou à vila a pouco; ela parece preocupada e quer conversar com um padre, perguntou se havia um por aqui.

— Esse lugar é sempre movimentado assim, senhorita Amáguila?

A pergunta pegou a mulher de surpresa.

— Na verdade, não muito.

O curandeiro quase sorriu. “Cuidado, senhorita, verdades são frágeis.” Mentiras tinham sua beleza, eram uma espécie de magia artificial, criada pela sociedade ao invés dos deuses. De que outro modo ele poderia estar ali? Afinal, ele não era um padre, nem mesmo um curandeiro.

 

Próxima Cena

 

A arcanista estava parada ao lado do cavalo, olhando para o nada. Dois homens cobertos com couro curado deviam ter trocado umas palavras com ela e, agora que o assunto morrera, continuavam ali desconfortáveis; o mais jovem fitava os próprios pés e o de barba grisalha encarava o cavalo, olhos estreitos e boca entreaberta. Estavam no centro da vila, sobre o barro úmido, a uns dez passos do poço. Alguns moradores haviam interrompido suas atividades para observá-los à distância.

Conforme o curandeiro se aproximava, os olhares voltavam para si. A arcanista balançou a cabeça e franziu as narinas.

— Fui informado que minha presença é requisitada por aqui.

— Essa mulher chegou a pouco, diz ser uma arcanista e… — começou o de barba grisalha.

— Com todo respeito, meu bom homem, mas acho que ela mesma consegue se apresentar.

Ela deu um riso seco de uma só nota.

— Será que podemos conversar a sós, padre? — A última palavra saiu impregnada de dúvida.

— Tudo bem… Vocês a ouviram, senhores. Se puderem se afastar um pouco…

A dupla de homens trocou olhares, assentiu e recuou. Porém não foram embora. A arcanista deu um passo em frente, segurou o heptauno que o curandeiro trazia ao pescoço e sussurrou:

— Jamais pensei que te veria com isso. — Sua voz estava cansada e seus olhos castanhos traziam uma frustração que não lhes pertencia.

— Eu precisei me virar, Pauline.

— Se fosse para ser assim, eu queria acreditar que esse símbolo te significa alguma coisa. Mas nós dois sabemos por que você está realmente usando… E isso me assusta.

— Acho melhor a gente continuar essa conversa fora da vila.

— Você tem uma reputação, não é? — Ela riu, tensa. — Então me siga, padre. — Ela subiu no cavalo com uma destreza desconhecida.

Quanto tempo mesmo fazia que não se viam? Uns dezenove meses?

— Ela quer me mostrar algo adiante, senhores — disse o curandeiro ao cruzarem com os homens que lhes vigiavam.

— Você acha seguro, padre? Precisa de companhia? — era o de barba grisalha.

— Agradeço a preocupação, mas os Senhores Divinos são toda companhia de que preciso.

— Se assim é, que Palatheas Portias te proteja.

A arcanista revirou os olhos e seguiu. O curandeiro foi em seu encalço em silêncio, gesticulando para os moradores que estava tudo bem.

Deixaram as últimas casas para trás e viraram à direita, evitando as plantações e os que lá trabalhavam.

Prosseguiram uns bons minutos naquela direção. Embora o avanço do cavalo fosse lento, o curandeiro sentia a distância entre eles aumentar. Não, não era isso. A quem ele queria enganar? Eles já estavam distantes, mas talvez só agora é que ele sentia aquele peso morto no peito, aquela dissonância entre o que foi um dia e o que lhes restava.

Pauline estacou às sombras de um guarapuvu e desceu da sela. O curandeiro se aproximou, mas ficou a procurar palavras. Ah, os olhos dela não eram mais os mesmos. O que o tempo lhe fizera?

Antes que encontrasse algo para dizer, o tapa estalou em sua face esquerda, rápido e ardido. Ele não reagiu. Ela chegou a abrir a boca, mas não disse nada; o cenho estava carregado, os olhos tremiam; os dedos da mão que usou para tapear-lhe estavam estendidos, oscilando, indecisos, como se não soubessem se queriam lhe estrangular ou lhe abraçar.

— Eu mereci isso. Desculpa, Pauline.

— Sabe por que estou aqui? Por que tive que ir à sua procura por meio continente?

— Você sabe que eu precisava fazer alguma coisa…

— Não isso! Primeiro eu achei que você estava abalado, que precisava de um tempo sozinho. Aí foram seis meses e eu tinha que admitir que você não voltaria tão cedo. E como você foi idiota, Gregório. É claro que não ia demorar para os Professores te colocarem na lista de caça; você não teve nem a decência de terminar os estudos! Eu expliquei a situação para eles, tentei ganhar tempo, mas eu sabia que precisava te encontrar, precisava te… — ela mordeu o lábio inferior — proteger.

— Você acha que eu não sei me virar? Eu larguei os estudos porque não tinha mais nada a aprender com aqueles livros. Não tem nada ali que vai nos ajudar a encontrar uma solução.

— E onde você foi procurá-la? Não acho que tenha sido nos livros sagrados.

— O mundo é um bom professor — Ele sorriu, pesado. — Olha, Pauline, tudo vai ficar bem, tá legal? — Então estendeu os braços e curvou as sobrancelhas. Ela abaixou a mão e recebeu o abraço, mas demorou para retribui-lo; mesmo quando o fez, a tensão nos ombros não desapareceu.

— Eu estava com saudade — sussurrou Gregório.

— Eu estava preocupada. — Ela largou-o e se afastou. — Me diga, o que você realmente tem feito?

— Eu vou dizer, mas primeiro me conte como está nosso irmão.

— Você não presta. — Ela soltou o ar com força e deixou alguns segundos passarem. — Ele ainda não disse nenhuma palavra. O Arquimago confirmou que a situação era irreversível e disse que seria caro demais mantê-lo como aluno… ele teria que sair da enfermaria e… Caramba, Gregório! Por que você não estava lá comigo? — A voz dela quase desapareceu.

— Desculpa… desculpa mesmo. Eu só estou tentando provar que essa situação não é irreversível. O Arquimago sabe disso, mas é canalha demais pra assumir. Tudo em nome das boas práticas, não é? Para o inferno com elas!

— Não é bem assim.

Gregório a ignorou, tinha os olhos fechados e o maxilar trincado. Forçou-se a abri-lo:

— Onde está nosso irmão?

— A Tiane acabou me aceitando como aluna de pesquisa e conseguiu um dormitório privado para nós dois. Ela nos defendeu perante o Arquimago, disse que ele não poderia expulsar alguém nas condições do nosso irmão, ainda mais se os reveses da estadia pudessem ser supridos com o meu trabalho. Se pudéssemos contar com o seu trabalho também, as coisas seriam mais fáceis.

— Mas se você está aqui agora, quem está suportando a estadia?

— Tiane me deu um ano para te encontrar, até lá ela cuidará de tudo.

— Um ano? Há quanto tempo você está atrás de mim?

— Dez meses. E a cada um deles, eu ficava mais assustada com quem você podia ter se tornado. E então? Como você usou seu tempo?

— Não há nada de assustador no que fiz, Pauline. — Por um instante a tensão que sentia desapareceu, sendo substituída por uma leve empolgação. — Olha, eu estou perto. Teve essa senhora em Laris que ficou um minuto sem batimentos cardíacos. — Seus lábios se abriram no sorriso mais largo que podia dar. — Um minuto! E eu a trouxe de volta!

— Não… não! — Pauline recuou e estendeu o braço.

— Você não percebe o quão grandioso é isso? É certo que eu ainda não consegui replicar, mas estou perto, eu sei que estou. — O sorriso ainda não havia se desfeito.

— PARA! O que você tem na cabeça?

— PODER, DROGA! — A empolgação passou, os lábios fecharam e seu peito começou a queimar. — Não é isso o que buscamos? Você acha que vai conseguir salvar nosso irmão se ficar ouvindo a Escola?

— Você acha que nosso irmão vai ser salvo se você brincar com a alma dele?

— Brincar? Quem tá de brincadeira é o Arquimago! Isso aqui é sério, Pauline! É a coisa mais séria que eu já fiz na vida!

A mão dela esticada havia voltado a oscilar, a outra retorcia-se, agarrada à calça.

— Não importa, você não vai conseguir ir a fundo nisso. Acha que consegue driblar os inquisidores? Não com Cina Margose no comando. Eles mataram até o Primeiro Bruxo!

Gregório trincou os dentes; seu maxilar estava tão rígido que o mínimo movimento o fazia estalar. Pauline se aproximou de novo. Pelos deuses, como ele detestava ver frustração naqueles olhos castanhos, agora também umedecidos.

— Mas que droga! — cuspiu ela antes de socar-lhe o peito. — Eu preciso de você! Não quero te arriscar em troca de uma esperança rasa de ter Lionel de volta. Nós só temos um ao outro, Greg.

Ele segurou a mão que repousava sobre seu peito e a pôs para baixo devagar enquanto dava um passo para trás. A outra mão dela permanecia agarrada à calça.

— Eu não vou te abandonar, só peço um pouco mais de tempo.

— Não, não temos tempo. Você volta comigo para Prestes. — As palavras soaram com uma certeza densa. Os olhos estavam estreitos; Gregório a conhecia bem demais para saber quando ela perdia o controle.

— Isso foi uma sugestão?

— Você não pode continuar com isso, Gregório.

— ESSA FOI A MERDA DE UMA SUGESTÃO! — Os punhos cerraram. — Não acredito em você, Pauline! Você achou mesmo que fosse dar certo? A Escola aceita esse tipo de coisa?

— Escuta, foi uma sugestão leve, tá bem? Ela tá nos livros, e… Foda-se! E se não estivesse? Eu preciso que você entenda!

— Eu não vou voltar com você. — Sua respiração estava rápida. Queria gritar que ela havia desperdiçado os últimos meses, que estava cega e manipulada pela Escola, que ele preferia ficar sozinho… mas seu maxilar travou de vez.

Precisava sair dali, não podia fazer nenhuma besteira.

Os olhos dela deixaram um par de lágrimas escapar. Ele amaldiçoou-se por ter deixado chegar a esse ponto; se ao menos tivesse aprendido as coisas mais rápido…

Só então viu. Ela havia largado a calça e os dedos haviam desenroscado a tampa do cantil atado à cintura. Quando percebeu, o jato d’água estava a meio caminho. Tentou esquivar, mas foi acertado entre o pescoço e a clavícula. Ficou sem ar e precisou dar um passo para trás para manter o equilíbrio, porém a perna lhe traiu. Antes mesmo que seu joelho encostasse o chão, metade do jato d’água, dividido no impacto, retornou e esbofeteou-lhe a face esquerda.

Seu peito ardia em uma mistura de frustração, ansiedade e falta de ar. Tentou levar sua mente para o orbe minúsculo que carregava sob as vestes. Tentou conectar-se ao querosene que lá havia. Mas então a outra metade do jato d’água estalou em suas costas como um chicote e a concentração se perdeu. Estendeu um dos braços em reflexo e viu água escorrer do cotovelo para a ponta dos dedos enquanto cristalizava. Levou a mente para o ar, mas ela estava caótica e era difícil manter o foco. Sentiu a água que fizera o chicote arrastar-se agora pelo braço ainda solto; o outro já era contido pelo gelo, enquanto a parte ainda líquida era puxada para além de seus dedos. Tentou usar o vento para empurrar a irmã, mas apenas soprou-lhe os cabelos.

Ela deu um passo em frente e segurou a haste de gelo recém-formada, que pairava no ar. Seu rosto era uma distorção de sua beleza. Seus olhos, um tormento. Somente ter pensado em fazer algo contra ela lhe era um castigo. O calor do corpo esvaía pelos dois membros agora enclausurados. Nada fez enquanto a segunda haste flutuava até a outra mão dela, puxando-lhe o braço.

— Por favor, Greg… — A voz estava molhada.

Ele estava à mercê daqueles olhos. Tudo o que queria era fazê-los voltar a ser o que eram. Sem jogos, sem mentiras, sem poder. Patético.

 

Próxima Cena

 

“Certas coisas não podem ser sacrificadas.”

Era incrível como depois de todos esses anos aquelas palavras ainda lhe soavam frescas. Gregório quase podia sentir o toque que seu irmão lhe dera depois de dizer aquilo. Uma mão repousava em seu ombro e a outra, no ombro de Pauline. Estavam escondidos entre os trigos enquanto os primeiros raios de sol do dia lançavam-se sobre a plantação. O silêncio que havia seguido não fora daquele tipo incômodo, quando ninguém sabe o que dizer; havia sido um silêncio preenchido com compreensão.

Lionel havia retornado, afinal. Fazia oito anos, na época, que ele partira para tentar a sorte em Prestes e tinha prometido que quando retornasse levaria os dois consigo. Ele era o mais velho, tinha dez verões a mais que Gregório e Pauline, gêmeos. E tudo bem, a promessa ele podia ter cumprido, só que ela estava longe de ser a realização de um sonho; Gregório nunca nutrira um grande desejo por ser um mago, apenas precisava fugir.

É certo que ele podia ter fugido antes, mas então seria provável que nunca mais visse o irmão. Pauline também não iria consigo, e ele não podia perder os dois. Não que o pensamento não costumasse vagar pela sua mente de tempos em tempos, afinal, lá no passado não havia garantia que Lionel pudesse voltar; valeria a pena continuar naquela vida? Valeria a pena sacrificar sua liberdade?

Mas então, sua espera fora recompensada. E mais do que isso; tão logo haviam deixado aquela maldita casa para trás, seu irmão fala aquelas palavras. Dentre todas as combinações semânticas possíveis, ele havia dito exatamente aquela.

“Certas coisas não podem ser sacrificadas.”

Gregório ainda podia ver a testa franzindo, os lábios se mexendo e o olhar… ah, o olhar! Havia algo diferente, uma percepção mais aguçada, uma conexão profunda com o presente.

“É preciso distingui-las com clareza”, continuara Lionel após os instantes de silêncio. “Se você sacrificar a coisa errada, acaba matando junto um pouco de sua humanidade.” Então fizera outra pausa.

“O problema é que toda grande decisão exige sacrifícios. Escolher um caminho é abrir mão de todos os outros. Hoje vocês escolheram fugir e sentem que isso é o correto a se fazer. Ótimo, isso significa que isso aqui, essa conexão entre nós, é algo que não vale sacrifício algum. Mas prestem atenção, meus queridos irmãos, porque a Torre irá testá-los ao limite. Quanto mais cedo descobrirem o que não deve ser sacrificado, mais fáceis serão as provações.”

Oito anos em Prestes haviam tornado Lionel um mago, e talvez magos tivessem mesmo um sexto sentido. Lionel sabia que Gregório era fraco, que podia não ser aceito na Escola, ou pior, que podia fugir de tudo e terminar sozinho.

Mas aquelas palavras haviam feito Gregório afugentar a indecisão e lhe dado força para seguir ao lado dos irmãos. Ele podia não ter certeza se estar ali significaria sacrificar sua liberdade, mas se fosse, tudo bem; o que não podia ser sacrificado era o seu laço fraternal.

— Desculpa.

A voz o trouxe de volta ao presente. Cavalgavam em ritmo lento e o sol minguava às suas costas. Pauline tinha as rédeas e Gregório apoiava-se em seus quadris; ele tinha os braços vermelhos, queimados de leve pelo gelo. O silêncio, que até então pairava entre os dois, era daquele tipo incômodo.

— Eu é que preciso me desculpar. — A voz dele era pouco mais que um sussurro. — Olha, eu também tenho medo. Medo dessa pessoa que eu posso estar me tornando.

Deu para ouvir a expiração dela.

— Eu queria que fosse diferente, Gregório. Queria que você nunca tivesse partido e que nosso irmão pudesse ser salvo… Queria acreditar nos deuses, acreditar que minhas preces são ouvidas. E aí eu podia dizer que você não precisa ter medo, que eles estão do teu lado, que eles vão te perdoar… te proteger. Seria tudo tão mais fácil.

— Ao invés deles — ela continuou —, eu só posso dizer que você tem a mim. A mim e ao meu perdão.

Por um instante, só os cascos do cavalo foram ouvidos. Gregório inclinou-se e beijou o ombro da irmã.

— É o suficiente.

Não, não era. Ainda havia essa parte de si que ardia pela esperança de ajudar Lionel, ou que pelo menos nascera dessa esperança. E era isso o que temia: por mais nobre que fosse a força motriz que lhe lançara naquela busca, ele já não podia dizer que agora ela se tratava somente de esperança. Algo mais forte o havia dominado, o desejo pelo conhecimento, o poder pelo poder.

Ele apertou o quadril da irmã com mais força:

— Eu só não sei se mereço o seu perdão. Mas seja como for, eu já fico satisfeito por você estar aqui, Pauline. Obrigado.

— Se quer me agradecer, aceite logo o perdão. Você sabe que eu detesto essa autopiedade.

Ele riu.

— Certo… E como você me encontrou, afinal? Tomei bastante cuidado para não deixar que nada me ligasse a Prestes ou a quem eu era.

— Quem você era?

Ele apertou os lábios.

— É… quem eu era e quem eu volto a ser a partir de hoje.

Ela contraiu os ombros. Gregório sabia que havia algo que ela queria dizer, mas não diria. Ao invés disso, ela meneou a cabeça e respondeu:

— Tiane me arranjou um rastreador. É coisa nova, que ainda está sendo aperfeiçoada pelos signomantes. Funciona como uma bússola, só que aponta pra pessoas.

— Hmm… É isso o que os inquisidores estão usando, então?

— Uma parte deles. O aparelho ainda tem uma margem de erro grande, a ponta oscila em uns trinta ou quarenta graus. Tem dias que passei andando em uma direção só para depois descobrir que precisava corrigi-la.

— Você levou dez meses para me encontrar, não foi?

— Sim, mas isso não foi culpa só da margem de erro. Depois de um bom tempo me perdendo e me corrigindo, comecei a perguntar nas vilas por alguém como você. No início recebia informações genéricas, até porque minha descrição era bem abrangente. Depois de uns meses, a menção a um padre começou a se repetir e comecei a desconfiar… Eu falei sério, Gregório, isso me assustou. Você acha mesmo que eu não ia ligar os pontos? E… sei lá, teve dias em que eu só não queria continuar, inventava qualquer desculpa para eu atrasar a busca e talvez perder o rastro…

Gregório engoliu em seco. Então levou uma das mãos ao ombro da irmã.

— Eu também tenho medo. Mas eu jamais deixaria que nos perdêssemos um do outro; eu jamais abriria mão de você, Pauline. Você sabe, certas coisas não podem ser sacrificadas.

 

Próxima Cena

 

Gregório balançava o frasco entre os dedos e observava o líquido cor de caramelo fluir do fundo para a rolha, e da rolha para o fundo. Os pensamentos dispersos iam e vinham sem rumo; pensava em como as coisas eram antes do acidente, sobre o tempo em que estivera fora e sobre os últimos meses. Fazia quase cinco que havia regressado a Prestes e retomado os estudos, mas nada era como antes.

Na ocasião, precisara se justificar com o próprio Arquimago. Depois de engolir o desprezo, contara que vagara sem destino pelo continente enquanto pensava na morte. Uma verdade sob um contexto falso, o suficiente para fazer aquela voz grossa e arrastada dizer-lhe: “Voltar aos estudos te fará bem, senhor Chavantes”.

E Gregório quis acreditar nisso. Havia mesmo se esforçado para as coisas voltarem a se estabilizar, só que não era possível. Primeiro, os Professores o mantinham sob vigília reforçada; não declarada, claro, mas ele era capaz de perceber os olhares, as bocas tortas e a desconfiança. Segundo, os outros aprendizes o tratavam ou com desdém ou com receio, nunca como um igual; embora não fosse de fazer amigos, ele já tivera bons colegas, agora já distantes. Além disso, o seu lado faminto continuava desperto; os livros estavam longe de satisfazê-lo e ele gritava cada dia mais pelo poder abnegado.

Era por isso que estava ali. Se nada seria como antes, devia ao menos tentar fazer algo pelo irmão. E de quebra, ainda poderia saciar seu desejo proibido.

Parou de brincar com o frasco e levantou os olhos para a vidraça, procurando na chuva ou no acaso algo que pudesse impedi-lo. Não encontrou nada além da solidão. Voltou a apertar o braço de Lionel, estirado inconsciente no leito à sua frente. Estavam no quarto de Pauline, grande e espaçoso, tal como ela dissera. A bem da verdade, Lionel nem precisava de todo aquele espaço, não mais, não naquela condição.

É, o mundo não era dos mais justos. As coisas seriam melhores se ele é que estivesse no lugar de Lionel, assim Pauline teria melhor companhia. Mas Gregório precisava admitir que não se tratava só de companhia, afinal, o irmão era melhor em tudo: mais corajoso, mais inteligente, mais centrado. Não seria surpreendente se, daqui a uns anos, ele substituísse o Arquimago. Havia poucos que se comparavam a Lionel; não mais que meia dúzia de nomes conseguiram se formar em Prestes em oito anos. Meia dúzia em quase cinco séculos!

Embora a Escola permitisse que cada um seguisse seu próprio ritmo, passando para a lição seguinte somente quando dominasse a anterior, era difícil fugir das comparações de desempenho, muitas vezes alimentadas pelos próprios Professores. Ao contrário do irmão, Gregório já estava há doze anos na graduação. É certo que todo esse atraso era muito mais pelos estudos paralelos do que pela falta de habilidade. Pauline, por outro lado, se formara em dez e agora se especializava em geomancia com Tiane; ainda bem, pois um aluno de graduação jamais teria conseguido aquele quarto.

Gregório abriu o frasco e colocou a rolha sobre a cômoda. Não teria mais que meia hora até Pauline retornar. Aquela era a quarta vez que ele quebrava a promessa para continuar praticando o proibido, mas seria a primeira com uma poção perceptiva.

Entornou o líquido cor de caramelo de uma só vez, porém susteve-o na boca. Os pensamentos se confundiam, tentando fazê-lo cuspir.

Havia prometido para Pauline que não faria nada de errado… Dreiki, seu Professor de Evocações, sentiria falta do frasco naquela noite… Além disso, a tentativa podia ser inútil, não valeria o risco…

A língua, depois de retraída pela amargura, já ficava dormente.

A promessa para Pauline… O frasco roubado… A desconfiança do Arquimago… ele devia mesmo estar em sua cola… Não devia ter retornado a Prestes… Havia prometido para Pauline…

Engoliu. Quase de imediato sentiu a cabeça leve, como se todos os pensamentos fossem rasos demais para ocuparem sua mente. Então a leveza começou a ser preenchida: ouviu as gotas escorrendo pela vidraça, uma pena rabiscando um pergaminho no andar de cima, uma respiração calma no andar de baixo. Pegou a rolha sobre a cômoda e sentiu cada um de seus microporos como se tivessem centímetros de profundidade. Tapou o frasco e o guardou nas vestes, conseguindo distinguir um fio de linho do outro pelo toque; podia até enxergar os vazios entre a costura.

Voltou a segurar o braço do irmão. Sentiu o sangue fluindo e fechou os olhos. Tentou perceber as microvibrações do ar: a língua arcana direta na fonte. Se conseguisse ouvi-la ecoando pela matéria, talvez ficasse mais fácil afetar o invisível. Sua concentração redobrou, sua atenção estava toda no contato da pele com as minúsculas partículas do ar. Passou a sentir suas oscilações, mas precisava interpretá-las para, então, alterá-las. Ah… como era linda a língua arcana! Era através dela que as leis naturais atuavam; era como se as nuvens pesadas sussurrassem ao ar: “estamos carregadas, abra espaço pois precisamos despejar nossas gotas”, ou como se as faíscas gritassem ao galho seco: “estamos quentes, comece a queimar!”.

Quando jovem, Gregório costumava rabiscar versos no caderno surrado que pertencera à sua mãe. Brincava com as palavras, gostava de procurar trocadilhos, comparações e analogias. Brincava também com o som e a cadência, ensaiando rimas e aliterações. Mas nada o satisfazia tanto quanto uma boa distorção da verdade, a busca pelas palavras perfeitas que encapsulariam um momento real em uma narrativa falsa, fora de contexto. Chegara a achar que se daria bem no comércio e desejara ser um mercador quando fugisse, mas daí seu irmão veio para Prestes e acabou amarrando seu destino àquele lugar. Contudo, se Gregório soubesse da fonomancia antes de chegar ali, nunca teria hesitado em vir.

Algumas décadas atrás, uma pesquisadora da Torre de Moreias havia descoberto a língua arcana e mudado para sempre o jeito de se fazer magia. Até então havia somente duas escolas: a fundarística e a geomancia, dois lados de uma mesma moeda; enquanto a fundarística se preocupava mais com o transporte de matéria e energia, a geomancia se preocupava com o meio no qual esse transporte era feito; uma podia levantar proteções e fazer objetos flutuarem, a outra criava fogos e tempestades. Então veio a língua arcana e não só otimizou essas escolas, como deflagrou a fonomancia; se para atenuar uma febre antes era preciso manipular o ar em torno da pessoa, agora era possível atuar diretamente em seu corpo através de encantamentos.

Só que manipular a língua arcana era delicado. Além das questões éticas, que logo se mostraram uma tremenda dor de cabeça para os Arquimagos, aquela era uma linguagem exata demais para que uma mentira passasse despercebida. Para manipular o ambiente através dela era preciso retorcer as verdades, usá-las umas contra as outras até se curvarem à sua vontade. Por isso, muitos praticantes das escolas antigas preferiam continuar fazendo magia do jeito antigo; Pauline era um deles.

Entretanto, usar a língua arcana não só permitia interagir direto com as leis naturais, como também alterá-las. Ao invés de compensar a gravidade, era possível sustê-la. É claro que o arcanista devia ser bom o suficiente em retorcer verdades, mas era possível. Daí sua descoberta ter provocado tamanho furor na Escola. Estudos obscuros foram deflagrados e a primeira onda de magos que brincavam sem pudor com os corpos dos vivos apareceu. Eles foram chamados de bruxos e passaram a ser caçados. Gregório achava-os repugnantes. Por outro lado, em menos de meio século já corriam histórias sobre magos fugitivos que conseguiam entrar em contato com os mortos. Aquilo sim era interessante.

Gregório expirou pesado. Tentou ignorar os ruídos de frequências mais altas e focar apenas nas diminutas, aquelas que estariam muito além de seu limite auditivo. Seus ouvidos não as interpretavam, mas as sentiam; elas roçavam-lhe a pele, sussurrando-lhe os mistérios do universo. Então ele murmurou de volta, tímido, tentando mudá-las. Elas responderam com violência, regressando de súbito ao estado antes da violação; haviam percebido uma mentira. Gregório engoliu em seco. Precisava ser mais cuidadoso.

Lionel permanecia o mesmo: mesma expressão, mesma posição, mesma pulsação. Próximo ao seu ouvido, Gregório alterou a vibração em uma sequência de interferências sutis. Pouco depois sentiu os batimentos do irmão caírem; 60 por minuto, 50… 40… Parou aí. O corpo devia estar leve e tranquilo. Então murmurou uma série de interferências ainda mais sutis, que mais pareciam uma história. Repetiu uma segunda, com menos erros. As vibrações do ar lhe comunicaram que algo nos fluxos de energia do ambiente mudara. Se tudo correra certo, ele havia conseguido projetar o espírito do irmão para fora do corpo.

Respirou fundo uma vez e deu tempo para sua percepção se reajustar. Agora que não havia mais o corpo inerte do irmão como uma barreira, talvez a comunicação ficasse mais fácil. Ele enviou as vibrações de uma mensagem encapsulada, um uso rasgado da língua arcana que imitava palavras, ineficazes para as leis naturais, mas capazes de ser compreendidas se o receptor fosse uma mente.

“Irmão… você me entende?”

Gregório aguardou mais do que gostaria. O maxilar travou. Enviou a mensagem de novo, mas ela foi temperada com a insegurança que ameaçava tomar-lhe o espírito. Ineficaz. Respirou fundo outra vez; precisava fazer aquela tentativa valer a pena. O maxilar destravou.

“Irmão… você me entende?”

As vibrações foram mais sutis, mais pausadas, mais pareciam uma brisa de verão do que um sopro de inverno. Então ele colocou toda a atenção nos ouvidos e percebeu uma mudança nas microvibrações. O coração acelerou. Descapsulou a mensagem, transformando o som inaudível em uma tradução mental… Primeiro letras ao acaso, como se fossem estática. O processo lhe era tão natural com a percepção aumentada que parecia mesmo estar ouvindo algo. Ao final, o ruído se transformou em uma palavra: “Greg…”

Um calafrio varreu seu corpo e um nó se instalou na garganta. As mãos tremeram. As lágrimas lhe subiram aos olhos.

“Lionel? Eu… eu estou aqui! Me diga que é você…”

Mais uma vez estática, e então:

“Sei… você… aqui… Coisas… não… ser… sacrificadas.”

Gregório sentiu as faces úmidas e os lábios esticarem.

“Eu posso te ajudar. Eu tenho uma solução. Mas preciso saber se você concorda.”

Se Lionel morresse e fosse trazido de volta, era provável que as sequelas desaparecessem. Tudo voltaria a ser como era. E agora, mais que nunca, Gregório sentia que era capaz de fazer; só precisaria de outra poção.

Então a resposta veio:

“Não. Não quero… solução… Greg. Sofro… Por favor… me deixe… morrer.”

 

Próxima Cena

 

A janela ficava em um recuo na parede leste do corredor. Ali havia um banco longo de pedra, delimitado por duas colunas. Com as costas apoiadas em uma delas estava Gregório, sentado, observando a noite sobre os prados. A cabeça latejava, revisitando as palavras do irmão, repetidas de novo e de novo sem parar há mais de um dia, sem saber o que fazer com elas.

Seria tudo um delírio? Mas se fosse, por que sua mente jogava contra sua vontade? E se não fosse, ele conseguiria ir adiante? Atender o desejo do irmão seria um gesto nobre ou um sacrifício mal interpretado?

Gregório expirou pesado e fechou os olhos. Ele tinha medo. Não por ser descoberto, ou pelo castigo que poderiam lhe dar; muito menos por que poderia ser caçado. Ele tinha medo de se perder, medo de que uma parte de sua humanidade fosse embora junto com Lionel. Mas a pergunta que mais o amedrontava, a mesma que ele evitava se fazer há meses, era o quanto dessa humanidade já estava morta. Talvez os Professores estivessem certos: somente uma mente doentia sucumbe às artes proibidas. E a mente de Gregório estava longe de ser saudável.

Ele ouviu alguém se aproximar, mas não deu bola. Sentiu um toque no ombro e só então tirou os olhos da escuridão. Era Pauline.

— Estava te procurando. — Ela se inclinou e beijou sua testa. — Damarca disse que você faltou a aula noturna. — Então ela sentou e apoiou as costas na coluna oposta forçando-o a recuar as pernas.

— É, parece que continuo me sabotando. — Deu um sorriso torto, distante. Mas essa não era a resposta que ela queria, ele pode ler em seus olhos. Por que é que tudo o que ele fazia os afastavam ainda mais? — Desculpa, eu não quero isso. Eu… eu só não consigo fingir que as coisas estão bem.

— Então não finja. — Ela deu de ombros. — Só saiba que eu estou aqui do seu lado.

O maxilar enrijeceu e Gregório fechou o punho. Lionel é quem devia estar ali em seu lugar, ao lado de Pauline.

— Você se lembra de quando Lionel partiu? — disse a irmã encarando o céu escuro; nos lábios, um sorriso contido. — Se lembra daquela noite?

Ele a ouviu respirando, os olhos erguidos para além da janela, provavelmente imersos no passado. Lionel costumava dizer que ela tinha os olhos da mãe e o sorriso do pai. Gregório nunca soube se ele fazia jus às lembranças que tinha ou se só dizia aquilo porque a fazia se sentir bem.

— Então? Você lembra? — Pauline havia voltado a olhar para Gregório. — Lembra de como eu fiquei em prantos? Lembra do que você me disse?

— Tínhamos só oito anos… isso… isso não importa mais.

— Você disse que tudo ia ficar bem, que mesmo se Lionel não voltasse, você ainda estaria ali comigo. Disse que nada nem ninguém poderia nos separar. E aí ficou sentado do meu lado enquanto eu dormia, me fazendo cafuné.

— Você precisava acreditar que alguém era capaz de te confortar como Lionel faria se estivesse ali. Foi só isso.

— Não, Greg. Naquela noite eu me sentia perdida, da mesma forma que me senti quando nossos pais se foram… E quando se está perdido, fica difícil enxergar o que ainda temos, ao que ainda devemos ser gratos. E aí você me lembrou que ainda estava ali… e eu precisava exatamente disso, precisava acreditar que você ficaria, que não tentaria nenhuma loucura; acreditar que nem tudo estava perdido.

Então ela se virou, apoiando as costas na parede e colocando os pés no chão; uma das mãos acariciou o joelho de Gregório.

— Agora sou eu que estou dizendo: nem tudo está perdido. É claro que eu sinto falta de Lionel e é claro que eu ainda tenho esperança de que ele saia dessa. Mas não posso deixar que isso me faça esquecer do que ainda tenho, do último presente que meus pais me deram… Greg… ainda temos um ao outro.

Ele também se virou, sentando ao lado da irmã. Fechou os olhos e encostou a testa na cabeça dela, lábios próximos ao seu ouvido.

— Desculpa… A última coisa que eu quero no mundo é te decepcionar, mas parece que eu não tenho feito um bom trabalho.

— Você não precisa de muito… — Ela virou o rosto e encostou sua testa na dele. — Vá as aulas, Greg. Estude, aprenda, faça novos amigos; isso vai te ajudar a lidar com a situação de Lionel. E vai te ajudar a esquecer aquilo… aquela vontade de… — ela abaixou a voz — sucumbir.

Ele recuou devagar, os olhares atados um ao outro. “Isso é poder, Pauline… poder.” Mas Gregório não tinha coragem de dizer isso, não queria vê-la com aquele olhar quebrado.

— Você tem um bom coração, Greg. Mas mesmo um bom coração pode ser consumido pela amargura. Olhe o que aconteceu com o barão…

Gregório engoliu em seco.

— Não é a mesma coisa.

Eles eram filhos de um cocheiro e de uma aia. O acidente acontecera durante uma viagem às terras da família da baronesa, em um dia em que o marido precisara ficar em casa para tratar de negócios.

— Não estou dizendo que é. Não ainda. Mas se você continuar alimentando isso que sente… Ah, Gregório… Pense! Depois do luto, o barão nos acolheu e até pediu que nos instruíssem a cuidar da casa; ele não queria nos expulsar quando tivéssemos idade… Só que ele alimentou esse desastre em segredo, e os anos o transformaram numa pessoa rancorosa.

— Eu sei a história, Pauline, eu estive lá. Ainda carrego nas costas as marcas que o rancor dele deixou.

— Não sei o que passou por aquela cabeça, mas você viu que de um dia para o outro ele começou a culpar nosso pai pelo acidente. Percebe, Greg? Da mesma forma, eu não sei o que tá passando aí dentro da sua cabeça agora… E se amanhã você acordar… — As palavras se perderam.

Gregório trincou os dentes. A comparação não era justa. A bem da verdade, as coisas agora podiam ser muito piores; o barão não conhecia a magia, tampouco as artes proibidas.

— Pauline… você acha que eu sou culpado?

As sobrancelhas dela se juntaram no meio da testa.

— Pelo o quê? — perguntou em um sussurro.

— É isso o que passa aqui dentro. — Gregório apontou para a própria fronte. — Eu me sinto culpado pelo que aconteceu com Lionel.

— Como assim? Você nem estava lá!

— Não… não estava. Mas você sabe a conversa que tivemos naquele dia.

— Qual é, você não pode levar isso a sério. Nosso irmão tinha consciência do que iria fazer e assumiu toda a responsabilidade por tentar.

— Você não entende. Fui eu que coloquei a ideia na cabeça dele, se eu nunca tivesse perguntado sobre o fogo-vivo…

— Lionel queria ser um Arquimago, queria fazer coisas que ninguém mais é capaz de fazer, estava sempre se colocando ao limite. Você não pode ser tão duro consigo mesmo, Greg. Se ele não tentasse invocar o fogo-vivo naquele dia, no outro ele talvez tentasse partir um morro em dois. Como podemos saber o que ia acontecer?

— Exatamente, não podemos. Talvez um dia a mais de treino fosse o suficiente para que a mente dele não cedesse.

— Ou talvez não. O barão enlouqueceu quando fez questão de encontrar um culpado… Esqueça isso! Foi um acidente, droga!

— É… — Ele respirou fundo. O brilho já abandonava o olhar dela.

— Olha, um aluno de Tiane tem ido para Albruque com frequência resolver umas coisas por ela. Eu posso pedir para ir da próxima vez… Se der, podemos ir juntos, acho que isso te fará bem.

Gregório queria abrir mão de tudo para se tornar um bom irmão. Queria esquecer as artes proibidas, queria esquecer a culpa, queria deixar para trás tudo o que podia ser sacrificado e ficar só com o que importava. Mas por que isso era tão difícil? Por que se agarrava a algo que o fazia sofrer? Por que não entregar o que a irmã queria e deixar que os dois fossem felizes?

— É, pode ser. — Ele fitava o piso. — Você tá certa, Pauline, eu só preciso tirar minha cabeça disso. Acho que uma viagem dessas pode mesmo me ajudar… Eu… — Só então Gregório se deu conta do nó que sustentava na garganta. — Eu preciso de ajuda. — Sua voz fraquejou e os dentes tremeram.

Ela o abraçou.

— Tá tudo bem. Nem tudo está perdido.

— Nem tudo… mas eu estou mais perdido do que você pensa.

— O que quer dizer com isso?

Ele mordeu a língua.

— Você manteve a promessa, Greg?

O murmúrio veio fraco:

— Não. — O abraço dela se tornou gelado. — Mas eu consegui falar com ele, Pauline. Ele está sofrendo e… — a expressão dela parecia entalhada em mármore — e pediu para que… para que nós acabássemos com o sofrimento… Ele quer partir.

Gregório sentiu as lágrimas em seu ombro.

— Desculpa, eu… eu sucumbi. Eu preciso de ajuda… Eu não quero mais…

As palavras deixaram o corredor, habitado por um soluço ou outro. Depois do que pareceram horas, Pauline ergueu o rosto e disse:

— Tá certo… eu vou te ajudar, vou te ajudar a deixar esse impulso para trás. Só precisamos de um ponto final… Você tem certeza que era ele?

— Sim. Certas coisas não podem ser sacrificadas… ele falou.

— Tudo bem. — Pauline afrouxava o abraço e meneava a cabeça. — Lionel merece nossa compreensão. — Um soluço. — Vamos atender seu pedido e então recomeçamos. Um ponto final e uma página nova… Ainda teremos um ao outro.

 

Próxima Cena

 

Gregório girava o pequeno orbe sobre a mesa. Em outros tempos, ele costumava carregar querosene ali dentro, pois achava bom ter uma arma à disposição. Mas há tempo ele não andava lá fora, e não havia mais por que se defender. Há tempo estava confinado naquela maldita torre, imerso naqueles malditos livros, sufocado por esses malditos pensamentos. Ele só queria que eles parassem, mas nunca paravam, nem quando dormia. Será mesmo que havia dormido, uma noite sequer, nos últimos anos?

O pequeno orbe girava, preenchido com o mesmo veneno que dera ao irmão. Diziam que era rápido e indolor. Era sua porta de saída, a anestesia final aos gritos por poder, a dissolução do caos. Gregório vinha sendo forte, resistindo dia após dia às mentiras que sua mente contava, à tentação de sucumbir. Mas depois de dois anos de luta, ele precisava admitir que já perdia as forças… O problema é que essa não era uma guerra em que ele podia ser derrotado, havia prometido inúmeras vezes para Pauline: “Não, eu não vou perder, eu vou ser forte, eu não vou sucumbir…”. De novo e de novo a mesma promessa. “Não posso ver dor naqueles olhos… Não posso sacrificá-la…”

O orbe parou de girar e Gregório o pinçou com os dedos. Balançou e sentiu o líquido no interior. A cura. A única que seria capaz de silenciar seus pensamentos. A única que acabaria com sua culpa. Ele estava doente, muito doente. Sua mente inventava devaneios sobre artes proibidas, murmurava que ele podia praticá-las, que ele tinha o dom, que ele já abraçou o poder antes… Não, isso nunca aconteceu. Até onde Gregório sabia, aquela conversa desvairada com Lionel havia sido fruto de sua imaginação, e graças a ela, o irmão estava morto. Ela não fazia sentido. Os Professores estavam certos, as artes proibidas não faziam sentido. Na verdade, nada mais fazia sentido.

Mas verdades são frágeis.

Gregório fitava o orbe. O braço tremia. O maxilar estava tão tenso que seus dentes doíam, na iminência de quebrarem. A cura… tão perto… tudo acabaria tão rápido…

O braço tombou sobre a mesa e o aperto sobre o orbe afrouxou. Aquilo devastaria Pauline tanto quanto sucumbir ao proibido. E pior, ele morreria como um fraco. Sim, um fraco.

Gregório levou o olhar ao heptauno jogado na outra ponta da mesa. Segurou-o. Talvez voltar a ser padre não fosse tão ruim, talvez pudesse se convencer de que era forte, de que podia manipular a morte, de que a conversa com Lionel havia sido real…

“Não… NÃO! A PROMESSA, DROGA!”. A boca escancarou, mas não emitiu som algum; estava tão tensa quanto com os dentes trincados. Ele queria gritar a plenos pulmões todas as maldições que conhecia, queria socar as paredes, queria descontar toda a sua raiva em… Em quem? No mundo inteiro? Em si mesmo? Quem era mais culpado? Sem destino, a raiva se enredou pelo corpo e lá permaneceu. Gregório ofegava, de boca ainda aberta. Acabaria adiando a decisão por mais um dia.

Batidas na porta.

Ele não respondeu, nem sequer levantou a cabeça. Ainda assim, entraram no dormitório.

— Eu esperava te encontrar aqui. — A voz era grossa e arrastada. — Imaginei que não tinhas ido à aula… de novo.

Gregório apertou os lábios e viu o Arquimago caminhar até o centro do aposento. Seus sapatos de linho deslizavam sobre o tapete como uma pena roçando papel. Aquele era um quarto para quatro, mas os outros estavam fora.

— Não estou me sentindo bem, senhor — disse evitando contato visual.

O Arquimago soprou o ar.

— Hoje você pode me chamar de Tristan, senhor Chavantes. — Arqueou as sobrancelhas e se aproximou da mesa. Gregório não disse nada, apenas aguardou enquanto ele se apoiava sobre o tampo e se ajoelhava, deixando os olhos escuros pouco abaixo dos seus. — Há tempo você não se sente bem. Faltou oito em cada dez aulas nos últimos três meses. Está há catorze anos na graduação; cinco sem nenhum avanço.

— É, esse é um bom resumo do meu histórico. — A voz era seca. Então fitou o Arquimago; a pouca luz exterior refletia nas costeletas brancas, emendadas no bigode, destacando o queixo enrugado.

— Não é minha intenção ser rude, embora eu possa. Eu só quero entendê-lo, senhor Chavantes. Quero saber como você consegue. Quero saber que tipo de mentiras tua mente te sussurra à noite. Quero entender como o irmão de Lionel pode nascer tão mentalmente desestabilizado.

A tensão no maxilar retornava.

— Pauline me implorou tantas vezes para que eu esperasse. Dizia que tudo era só uma questão de tempo. Claro, eu disse para ela, eu imagino que deva ser difícil passar pelo o que vocês passaram. Então eu te dei tempo, muito mais do que daria para qualquer outro. — Estalou os lábios. — Ela é uma garota formidável, não é? Passou por tudo com tanta força, sem nunca deixar nada atrapalhar seus estudos, que não me espanta Tiane já mencioná-la como sua principal sucessora. Só que mesmo os mais brilhantes precisam lidar com questões… inconvenientes. Se não bastasse o passado sofrido e a perda do irmão mais velho, ela ainda precisa lidar com você. A coitada não aguenta mais, senhor Chavantes.

Os punhos fecharam, fazendo força sobre a mesa.

— E aí você me põe em uma situação delicada. Eu queria ajudá-lo, mas sabe qual o problema? Essa sua postura me faz me arrepender do dia em que você foi admitido aqui. Quando olho para você, eu enxergo mais um erro definitivo do que uma possibilidade de revertê-lo. E isso é triste, principalmente nesses tempos em que precisamos tomar um cuidado reforçado para impedir que praticantes das artes proibidas se instalem aqui dentro. O que deixa meu erro apenas maior, já que pedi para relevarem seus deslizes nos exames por acreditar que o sangue de Lionel estaria aí. — Ele fechou os olhos e negou com a cabeça. — Fui um tolo. — Voltou a abri-los. — O que me consola é que você é fraco demais até para sucumbir.

Gregório desejou com todas as forças que ainda tivesse querosene.

— Calma, senhor Chavantes. Você não vai conseguir me responder, se continuar rangendo os dentes assim.

Os braços empurraram Gregório para longe da mesa. O corpo se ergueu e a cadeira tombou. O peito queimava.

— E então? O que se passa aí dentro? — O Arquimago permaneceu agachado, com um leve toque de curiosidade no rosto.

Gregório quis arrancar aquela expressão. Carregou o soco com toda a amargura que nutrira nos últimos anos. Mas a mão foi contida por uma força muito maior, vinda do nada. Foi como socar uma montanha. Os dedos estalaram e ele gritou. O urro primeiro lhe pareceu libertador, atirando ao ar tudo o que ele vinha guardando em silêncio. Mas no fim, o grito embargou e a dor permaneceu. O Arquimago sorriu.

— Aí está. Era isso o que eu queria ouvir.

Gregório segurou a mão quebrada com a outra, deixando à mostra o heptauno. Os dedos sangravam.

— Percebe, senhor Chavantes? Você não pode culpar ninguém pelo o que está aí dentro. Você é o único responsável por transformar um pensamento de agressão, na agressão em si. Você, e somente você, pode alimentar o que carrega na mente. O curioso é que as pessoas tendem a alimentar justamente o que se volta contra elas mais cedo ou mais tarde. Será que não percebem que, no fim dos dias, é só isso o que lhes restará?

Gregório arfava. O Arquimago se levantou.

— Se tiver sorte, vai ficar com sequelas nessa mão; isso vai te ajudar a lembrar. — Então arqueou as sobrancelhas. — Não me entenda mal, é importante que você não esqueça. Mas de qualquer forma, eu espero que você se ajeite e seja feliz… — Molhou os lábios. — Só não posso mais permitir que continue aqui. Você entende isso, não é?

— É isso então? — Sua mão latejava e o sangue pingava no tapete. — Todo esse teatro para você me expulsar?

— Eu compartilho dos pensamentos de Cina Margose, senhor Chavantes. Não toleramos mentes fracas em nossas Escolas. Esse desleixo e completa falta de compromisso são lastimáveis, suportei até agora pelo respeito que tenho pelos seus irmãos.

— Respeito? Você que desistiu de Lionel! VOCÊ desistiu dele!

— O que aconteceu com seu irmão foi uma tragédia. Lionel foi um mago extraordinário, e preciso admitir que uma parte de mim queria acreditar que você o representaria, um pouco que seja. Mas já não penso assim. Dê um jeito nessa mão, arrume suas coisas e parta. Você tem dois dias.

Antes de se virar, o Arquimago fitou o heptauno, agora manchado de sangue.

— E não se iluda, os deuses não vão te ajudar. Acho que agora, o único que pode fazer isso é você mesmo.

Então foi embora, com os sapatos roçando no tapete. Fechou a porta, mas Gregório nem percebeu; tinha os olhos fixos no heptauno.

Aquele merda estava certo, o único que podia ajudá-lo era ele mesmo. Só que isso não aconteceria enquanto Gregório continuasse alimentando essa resistência a quem realmente era. Era por isso que estava doente; nesses últimos anos ele vinha sacrificando a coisa errada, e isso assassinava sua sanidade. Mais do que seus irmãos, o que ele não podia sacrificar era seu poder. E estava na hora de buscá-lo.

 

Próxima Cena

 

Gregório arrastou o corpo para dentro da ermida. O espaço era pequeno, habitado por dois bancos e um altar singelo; mal cabiam três pessoas em pé. A parede ao fundo tinha um heptauno pintado quase todo em cinza, à exceção de uma ponta prateada. Abaixo dele lia-se Labertem; Liberdade em língua antiga, a expressão de Freishee. Sobre o altar, haviam velas, penas e dois frascos: um vazio, talvez representando o ar como oferenda, e o outro com um líquido cor de caramelo.

Com cuidado, Gregório deitou o corpo em um dos bancos. Aquilo foi um alívio para sua mão direita. Fechou-a e abriu-a algumas vezes. Então colocou-a contra as velas e observou os dedos tortos. Um lembrete… Virou-se para o outro banco e notou que lá fora os restos da fogueira insistiam em chamuscar. Estalou a língua.

Saiu da ermida e jogou mais um pouco de barro sobre a madeira queimada. Olhou para os dois lados da estrada e não viu nenhuma silhueta se aproximando. Embora fosse quase lua cheia, as nuvens estavam pesadas e pouca coisa revelavam. Antes de retornar, conferiu outra vez se o cavalo estava bem atado ao palanque. O animal lhe acompanhou com a cabeça, olhos vidrados. Seria ele capaz de ver por trás da batina? Por trás da pele e dos músculos? Gregório passou a mão na crina sem provocar reação alguma. Será que ele conseguia sentir o que estava para acontecer?

Deu um meio-sorriso e voltou para a ermida. Sentou no banco vazio e fitou o corpo: homem, pouco mais de vinte anos, tipo atlético. Disse que precisava fechar uns negócios em Braine antes que seus pais chegassem com os tapetes. Era incrível a confiança que uma batina e palavras de paz podiam conquistar. Depois de ser ofertado uma ceia então, o rapaz lhe teria dito qualquer coisa. Mas Gregório estava interessado apenas em seu silêncio.

Esticou o braço e agarrou um dos frascos sobre o altar. Aquela vez seria diferente de seus experimentos, pois não haveria volta. Arrancou a rolha e deixou-a cair. Os dedos tremeram. Saber que aquela noite era para valer era uma rasteira psicológica, uma fraqueza indomada. Mas tudo bem, era por isso que havia reservado o frasco.

Tragou o conteúdo em um só gole.

Uma mãe-da-lua cantarolou a uma distância maior do que suporia. A respiração do rapaz era mínima. O vento sibilou entre as asas de um pássaro que sobrevoava a ermida.

Então Gregório respirou fundo e colocou a atenção na língua arcana. As velas apagaram. Antes mesmo dos olhos se acostumarem com a escuridão, fez o corpo do rapaz ficar leve. Porém sentiu uma perturbação incomum, um deslize. Reforçou os encantamentos em segundo plano, tanto o que acalmava o cavalo quanto o que mantinha o rapaz desacordado.

Semanas atrás, uma de suas cobaias havia se agarrado tanto ao corpo que dissociar seu espírito foi como arrancar uma erva daninha, uma que estivesse com suas raízes enroscadas em todas as outras do jardim. Quando acordou, a cobaia contou ter tido um pesadelo e Gregório lhe disse que devia ter sido um sinal de Freishee. Depois daquilo ele não podia mais depender só do sono natural para apagar os corpos.

A perturbação se estabilizou sem afetar o espírito do rapaz. Bom… Então Gregório murmurou a segunda parte da lengalenga que vinha treinando e convenceu as leis naturais a cortarem a conexão. Deixou de ouvir a respiração e a pulsação no banco ao lado. Os olhos faziam um uso formidável do traço de luz que se esgueirava pela ermida, e analisavam a expressão serena na face morta. Qualquer um diria que o rapaz havia partido em paz. Partido. O curioso era que o espírito permanecia flutuando centímetros acima do corpo. Se quisesse, poderia remendá-lo; já fizera isso seis vezes nas últimas três semanas. No entanto, aquela noite seria diferente. Não haveria mais volta…

 

“Você atacou o Arquimago! Pelos deuses!”, a voz de Pauline era uma mistura de lamentação e raiva. “Eu juro que tentei de tudo, Greg… E agora… Eu… eu não quero te perder…”, ela trazia as sobrancelhas unidas e os olhos devastados. Aquilo doía em Gregório mais do que a mão arrebentada, mas ele precisava ser honesto: suas ações vinham machucando a irmã há tempo. Ele era um peso irreparável. E se fosse para machucá-la, que não o fizesse com sua fraqueza.

 

A língua arcana lhe dizia que o espírito do rapaz permanecia inerte. Só que agora, separado do corpo, era mais difícil sustentar o encantamento. Gregório reforçou-o de novo e quase deixou o outro, sobre o cavalo, resvalar. Precisava ter certeza de que o espírito não interferiria. O coração retumbava no peito como um castelo desmoronando, o eco de cada batida acentuado pela poção.

 

“Pauline, você não vai me perder. Eu ainda posso vir te visitar de vez em quando. Talvez isso seja melhor mesmo, você sabe como foram os últimos anos… Talvez nessas visitas nos entendamos melhor, talvez eu deixe de te decepcionar.” Tudo o que queria era tornar sua partida mais fácil; sabia que, naquele momento, não precisava de muito para sua ânsia pelo poder abrandar, e ele precisava da ânsia, era a única coisa que o mantinha vivo. Não… teria sido melhor dificultar a despedida… aquela havia sido sua última chance…

Nunca voltou para visitá-la.

 

Então contou uma história ao seu próprio ouvido e as leis naturais foram distorcidas ao seu redor. Sentiu o corpo leve e ampliado. A visão embaçou e começou a oscilar, como se estivesse em um barco numa tempestade. Fechou os olhos e afugentou a tontura. A mente estava em ordem, concentrada na língua arcana, mas sobrecarregada. Lá fora, o cavalo relinchou, batendo as patas sobre o solo.

 

“E para onde você vai?”, a voz da irmã tremia.

“Você não precisa se preocupar, eu vou dar um jeito. Já sobrevivi por aí por mais de um ano. Eu consigo me virar, tá legal?”, ele tentou soar o mais assertivo e calmo que podia.

“É isso o que me preocupa! Nós dois sabemos o que aconteceu naquele ano e…”

“Vai ser diferente”, interrompeu-a.

“É? O que você vai fazer, então? Você precisa me prometer. Me prometa de novo. E mande notícias com frequência.”

“Já faz dois anos desde a última vez, Pauline. Eu prometo que não vou sucumbir. Só quero ficar sossegado, encontrar um pedaço de terra sem dono e me arranjar. Talvez você é que venha me fazer uma visita, hã? O que acha?”, sorriu deixando a sugestão o mais sutil que podia.

Ela expirou e expulsou boa parte da tensão, sem disfarçar que sorria.

“É… seria bom. O que eu mais desejo é que você fique em paz, Greg”, ela beijou sua testa. “Agora vem, deixa eu fazer um curativo melhor nessa mão. Esse que você fez tá um nojo.”

Aquele último sorriso lhe deu o impulso que precisava. O impulso que os afastaria para sempre.

 

Ele sentiu o cordão que o ligava ao corpo, então desfiou-o devagar. Para cada fio desprendido, fazia outro nascer em substituição. Não que o fizesse no sentido literal, apenas sussurrava o que precisava acontecer. Nada via, embora sentisse espasmos na barriga, como se alguém estivesse sugando seu sangue pelo umbigo. Então um formigamento começou a assolar seu corpo, dos dedos do pé ao topo da cabeça. Sentiu o ímpeto de levantar e agitar os braços, mas era incapaz de mexer um músculo. Estava em um sono consciente, sem sonhos, imerso em escuridão.

Ao mesmo tempo, usava os fios soltos para tecer um novo cordão. Ele partia da metade do antigo e se esticava em direção ao outro corpo. Fio após fio, ele ganhava forma. Gregório reforçou o encantamento sobre o rapaz uma terceira vez e, em um estado mental febril, pediu à sua já afeiçoada Freishee para que não o deixasse perder o controle. Então emendou o cordão recém-tecido com os restos daquele que despontava do cadáver fresco.

Uma pressão gigantesca partiu sua mente em duas. Tentou mantê-la unida, mas sua energia estava trôpega e difusa, preocupada em manter dois corações batendo em sincronia. O ar que respirava não lhe parecia o suficiente, tampouco os pulmões pareciam cooperar, pesados e rasos. O encantamento sobre o rapaz insistia em cair na inconsciência, fluindo pouco a pouco para longe de seu controle. Em um lapso de sanidade, Gregório conseguiu cortar a conexão com o corpo antigo. Tudo ficou quieto.

Quando se deu por si, o coração batia ligeiro e a respiração abocanhava o ar em pedaços. A mente se ajeitava aos poucos, agora livre da percepção aumentada. Ao fundo, ainda dava para ouvir o cavalo batendo os cascos descompassadamente.

Abriu os olhos e piscou algumas vezes. Sentou e levou as mãos à face. Deixou-as deslizar para baixo, sentindo o nariz adunco e o queixo liso e fino. Aguardou o coração acalmar e o enjoo desaparecer enquanto forçava-se a respirar fundo. Só então virou o rosto e viu o vulto caído sobre o banco ao seu lado.

O cavalo relinchou de novo e foi acalmado em seguida. Ao que parecia, não havia diferença no uso de seus poderes. Outra ordem simples e as velas acenderam. Mesmo sabendo o que veria, foi incapaz de conter o assombro. Levantou-se e tropeçou até o outro banco, como uma criança a ensaiar os primeiros passos. Então ajoelhou-se aos pés do corpo, tomando cuidado com os cacos espalhados pelo chão.

O cabelo negro e ondulado, a pele acastanhada, a barba por fazer… Ao pescoço, repousava o heptauno. Segurou-o, mas o objeto lhe pareceu estranho ao toque. Esticou os dedos longos e rosados, então comparou-os com os tortos que flutuavam acima dos cacos. Sorriu. Levantou a manga da batina, apertou o pulso e confirmou que estava morto. Se não podia conviver com seus sacrifícios, que sacrificasse então toda sua identidade.

Então acariciou a face antiga como se pertencesse a um passado já distante. Ela era um resumo de toda sua fraqueza. E se aquela forma não mais lhe definia, tampouco lhe serviriam os seus valores. Gregório havia lhe deixado. Agora estava livre para perseguir o que quisesse.

Pôs a mão sob a batina, conferiu se a carta estava ali e pegou o orbe. Transferiu uma parte do veneno para os lábios de Gregório e guardou o resto em uma algibeira. Na verdade, estava tão livre que nem mesmo os inquisidores saberiam de sua existência.

Contudo, ele sabia que verdades eram frágeis. E uma parte de si temia que ali à sua frente estivesse, ao invés do apanhado de suas fraquezas, os restos de sua humanidade. Não… aquilo não lhe significava nada, não devia haver mais ninguém dentro de si que se importava com sacrifícios.

 

Próxima Cena

 

Essa história acabou surgindo enquanto eu escrevia outra. Naquela, Gregório aparece sem um passado e sem um nome, e achei que não devia privá-lo dessas coisas.

E aí, precisei voltar no tempo... Mas a verdade é que anos passaram e a fonomancia evoluiu, assim como o controle às artes proibidas. Por outro lado, a signomancia, pouco explorada aqui, teve seus revezes. Um dos primeiros signomantes, insatisfeito com o rumo que os Arquimagos tomavam, abandonou a Ordem Arcana e isolou-se no mundo. Em sua reclusão, então, fundou a Ordem de Sirius, dando um novo significado à magia.

É sobre esse significado que trata a outra história. Apesar de O Cavaleiro de Sirius ser um outro tempo, com outras personagens, ele aborda muito do que você viu aqui. Só que, por ser um romance, lá tenho espaço para ir além.

Ainda assim, são histórias independentes. Saber o passado de Gregório, embora não seja necessário, vai te dar um gostinho extra.

Mas então? Você também se dobrará à loucura? Sentirá o vazio? Ou será capaz de encontrar sentido na magia?

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O Cavaleiro de Sirius